quarta-feira, 2 de março de 2016

A ESCOLA E SUAS INTERFACES

Há poucos anos entendi minha dificuldade em História. O que eu decorava em sala de aula não tinha nada a ver com a minha história. Nem mesmo relação alguma com a história de todas as crianças que assistiam, em uma época, a história de outra época. Ir as aulas era como realizar uma obrigação, era a realização de um desejo anônimo. As importantes marcas cronológicas da humanidade, os intermináveis nomes de reis e regiões, as geografias… tudo muito distante. Não apenas separados por anos ou por oceanos, mas do outro lado de nossas fantasias, do outro lado de nossos cotidianos. Na física tanto as cachoeiras, os trens e as bolas de canhão tinham seu sentido calculado no tempo e no espaço, mas em nosso tempo e em nosso espaço eles não tinham o menor sentido.

Há a importância de se entender a relação da massa com as forças; das células com as partículas; do frio com o calor; da guerra com a paz; da soma com a subtração; do branco e do preto; das palavras com suas devidas regras. Mas geralmente tudo isso, em sala de aula, fica automático, burocrático. E com quem aprendemos mais? Aliás, o que é ensinar/aprender?

Quando algo não faz sentido – ou melhor, não ressoa em nós – não estamos diante de algo que tomamos como da ordem de uma experiência em direção à mudança e invenção de si, pois a experiência exige uma novidade. Aprender, do Latim apprehendere, significaria “agarrar, tomar posse de”. Trata-se de se apropriar com a experiência, que requer, necessariamente, uma diferenciação, uma modificação de si. Parece que as escolas estão preocupadas apenas em tomar posse dos alunos e não de utilizar seus desejos. Ensina-se retroativamente, pois tenta-se ensinar à luz da época do professor, sem incluir o aprendiz no aprendizado.

Aos que tem por profissão os seres humanos: antes de tentar enxertar qualquer perspectiva sobre a juventude de hoje, saiba que não somos nós que os interpretamos, mas eles que nos interpretam

As dificuldades não estão apenas no conteúdo

da aula, mas no manejo intelectual e afetivo, 

pois um professor torna-se inesquecível pelo 

encontro que estabelece com o aluno, pela 

forma como os envolvidos se ressoam, como se 

aproximam e se afastam, e não apenas pelo 

conteúdo que ensinou. 

Professor é aquele que aprende enquanto ensina. Caso tente ver o ano de hoje à luz de anos passados, a comparação o levará apenas à nostalgia e se depreciará o mixado mundo de hoje. Afinal, as formas de vida hoje estão atualizadas e mostram-se inéditas e sem padrão com séculos anteriores, sendo assim impossível prever as formas de vida de amanhã. Ficará para trás com ideais que não se sustentam mais, pois há novas formas de amar, educar, crescer, trabalhar, adoecer, envelhecer e morrer. #ficadica


Uma comparação entre escolas, hospícios e presídios ainda pode ser feita. Em todos as grades e as portas servem para que ninguém saia. Ainda não vi alguém ser impedido de participar de uma aula, desejada, por grades ou portas fechadas. E nestes presídios, o que toca seus habitantes? Importante ressaltar que não é em toda a escola em si que há um movimento de prisão de sujeitos uniformes (afinal usam uniformes). Fora de sala de aula, (e por vezes dentro dela) a “confusão” está armada, desnaturaliza-se o objetivo fundamental de uma escola, e nela todos estudantes se entendem mesmo sem trocar palavras. 

Neste ponto, há uma liberdade interessante, pois deixa de se aprender – decorar – e passa-se a sentir, tocar, expressar. Na escola também mudam-se as perspectivas, pois o jovem vê um mundo diferente do seu seio familiar, e isto pode ser de grande importância para seu desenvolvimento. Larga-se a chupeta, aprende que se não correr fica pra trás, que a falta e a saudade tem sua importância, que perder faz parte e ninguém vai aliviar seus defeitos, aprende-se sobre meninos e meninas, a ganhar e perder amigos, aprende a chorar e esquecer, aprende a ter que se virar com seu português, ou melhor, aprende a falar por si. Portanto, a escola tem interfaces, não é boa ou má por si só.

Além disto, há que se considerar as convivências dos jovens de hoje e os modos de se relacionarem. 


Por hoje chega, pessoal, hora do recreio!


Fonte: alexandrevbrito.wordpress.com 

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