segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O ENSINO DE HISTÓRIA NO BRASIL SERÁ ALTERADO?


















Por: Folha e Gazeta do Povo

Se a base nacional curricular proposta pelo Ministério da Educação passasse a valer hoje, as escolas de todo o país teriam de fazer uma mudança significativa no ensino de história, especialmente no ensino médio.


Isso porque, atualmente, sem uma ementa "padrão" a ser seguida, as escolas se baseiam fortemente em uma "visão europeia" e cronológica da história: antiga, medieval, moderna e contemporânea –isso além de história do Brasil e da América.

A nova proposta de currículo de história no ensino médio, elaborada por especialistas convidados pelo MEC, vai no sentido oposto. Dá ênfase, por exemplo, à história das Américas, da África e história indígena nos dois primeiros anos do ensino médio.


 O projeto da proposta curricular ainda segue em discussão, de acordo com o MEC, pelo menos até o final do primeiro semestre de 2016.

Mesmo assim, já está tirando o sono dos acadêmicos mais conservadores e dividindo opiniões desde que foi lançado, no início de setembro.

Hoje, as escolas públicas que oferecem ensino médio seguem diretrizes estaduais. As particulares têm liberdade de ensinar o que quiserem desde que não firam alguns princípios "básicos", que são acompanhados por supervisores do governo estadual.

"Eu não poderia, hipoteticamente, ensinar princípios básicos da teoria nazista", explica o historiador Silvio Freire, diretor do ensino médio do colégio Santa Maria. "No entanto, se quisesse excluir Idade Média do currículo de história, por exemplo, eu teria liberdade para fazer isso."





'EXTRAOFICIAL'

Na prática, o Santa Maria não excluiria o conteúdo de Idade Média do currículo por um simples motivo: o tema aparece recorrentemente em exames vestibulares importantes e no próprio Enem, cujas notas são usadas para ingresso em universidades federais e em algumas estaduais e particulares.

 "Sempre digo que existe um currículo extraoficial: são os processos seletivos das boas universidades", diz Freire.

Muitas escolas preferem seguir a ementa tradicional da Fuvest -processo seletivo da USP, melhor universidade do país segundo o RUF (Ranking Universitário Folha).

É o caso do Bandeirantes, que diz seguir a ementa de história do exame e distribui o conteúdo ao longo dos três anos do ensino médio. A escola tem boa aprovação na USP e também figura entre as dez melhores escolas paulistas no ranking do Enem.

No Dante Alighieri, tradicional escola particular paulistana, o conteúdo de história também segue a Fuvest. "Não posso ignorar a Antiguidade Clássica porque todo ano há uma questão sobre Grécia na Fuvest", explica Jackson Fergson de Farias, professor do Dante.

Na última Fuvest, de 2015, uma das 90 questões de conhecimentos gerais abordou o aspecto disperso e pouco unificado politicamente dos gregos na Antiguidade.

"A Fuvest realmente tem uma abordagem bastante tradicional", diz Gustavo Peixoto, coordenador de história da Adaptativa, empresa parceira da Folha na elaboração dos simulados na Fuvest e do Enem. "O problema vai ser se exames como a Fuvest seguirem uma linha e o currículo nacional seguir outra", diz.


 No ensino público paulista, Grécia e Roma também são ensinadas no 1º ano do ensino médio –as escolas estaduais de São Paulo seguem uma ementa que define o conteúdo que deve ser ensinado a cada bimestre.


Já no 2º ano do ensino médio da rede pública paulista estão Renascimento, sistemas coloniais europeus e Revolução Francesa -uma proposta bem diferente da elaborada pelo MEC.


Apesar da polêmica, as novidades do currículo de história até que podem ser consideradas moderadas. Para a diretora da Faculdade de Educação da PUC-SP, Neide Noffs, a base curricular seria realmente inovadora se fosse interdisciplinar.

"O MEC continua enxergando as disciplinas de maneira separada. História segue separada da geografia, da biologia. Tornar o ensino interdisciplinar e mais conectado com a realidade do aluno seria, sim, transformador", afirma.



ESTADOS UNIDOS

Uma das inspirações para a construção de uma base curricular nacional vem de países como os Estados Unidos. Lá, o debate começou na década de 1990 –logo depois de a Constituição brasileira de 1988 incluir a fixação de "conteúdos mínimos para o ensino fundamental". O currículo norte-americano, no entanto, veio antes: em 2010.

A proposta norte-americana traz as habilidades que os alunos devem ter ao final de ciclos de três anos.


Em história e estudos sociais, o currículo define, por exemplo, que os alunos do final do ensino médio têm de saber "diferenciar pontos de vista divergentes sobre um mesmo evento histórico".

"Vamos percorrer um caminho já trilhado por quase todas as nações com bons resultados educacionais", diz Denis Mizne, diretor-executivo da Fundação Lemann –instituição que encabeçou o "Movimento pela Base".

A Lemann deve lançar, em breve, um relatório sobre a proposta do MEC para cada uma das disciplinas.

Assim como no Brasil, nos EUA muita gente torceu o nariz para o currículo comum. Alguns Estados, como a Carolina do Norte, não aceitaram a diretriz nacional e adotaram ementas próprias.

A proposta curricular ainda segue em discussão ao menos até meados de 2016 -a ideia inicial era que fosse encaminhada ao CNE (Conselho Nacional de Educação) até o final deste ano.
 
Em história, as mudanças no currículo não são consenso nem entre os especialistas do MEC. A ementa da disciplina atrasou e foi publicada depois das demais ementas, lançadas no início de setembro.

O ensino de história da África e da cultura afro-brasileira, no entanto, não é uma novidade da proposta do MEC. O tema já havia sido incluído, em 2003, na LDB (Lei de Diretrizes e Bases) e, desde então, começou a fazer parte dos currículos.

O próprio Enem costuma trazer em média duas questões (de um total de 180) sobre história da África.

"Na história tradicional ensinada hoje, América e a África passam a existir a partir das colonizações europeias," diz Silvio Freire, diretor do ensino médio do colégio Santa Maria. "Parece, porém, que a principal polêmica sobre o ensino de história na proposta curricular é que a determinação vem do governo."

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CURRÍCULO DE HISTÓRIA EM 

DEBATE

Proposta de ementa da base nacional curricular é alvo de críticas

Como é hoje

Escolas se baseiam em livros didáticos, que são escolhidos a partir de princípios da própria escola e do que cai nos grandes vestibulares e no Enem



Como será

Ideia é que 60% do conteúdo siga a proposta curricular do MEC e que o restante respeite regionalidades (como revoluções estaduais)


*1988
Base nacional curricular consta no Artigo 210 da Constituição, que define que "serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental"

2015
Base é lançada em 30 de julho pelo MEC, com a proposta de ser discutida até o final do 1º semestre de 2016, antes de ser encaminhada ao Conselho Nacional de Educação

190 mil
Escolas públicas e particulares do Brasil serão afetadas com o novo currículo

2 milhões
De professores atuam nessas escolas


Fontes: Base Nacional Curricular e ementa de história da Fuvest, seguida pelas escolas consultadas nesta reportagem

Fonte: SABINE RIGHETTI / COLABORAÇÃO PARA A FOLHA / 22/11/2015



Historiadores criticam tentativa de 

ideologizar conteúdo

As declarações do ex-ministro Renato Janine Ribeiro e do sociólogo Demétrio Magnoli, autor de um artigo na Gazeta do Povo criticando a Base Nacional Curricular Comum (BNCC), foram contestadas pelas historiadoras ouvidas pela reportagem.

“Não há nada neste currículo que indique uma ideologia ou doutrinação. O ensino de História deve não apenas estudar as diferenças mas compreender para respeitar. O currículo apenas contempla os objetivos do ensino de história que são respeito à diversidade, pluralidades étnico-raciais, religiosa, de gênero, etc”, afirma Márcia Elisa Teté Ramos, da UEL. Maria Auxiliadora Schmidt afirma que as opiniões de ambos foram “infelizes”.

Na opinião de Joseli Mendonça, “todo currículo é ideológico”, no sentido de que não existe neutralidade. Ela diz que o ensino por meio da periodização convencional (antiguidade, idade média, moderna e contemporânea) também é uma escolha ideológica. “Não se pode dizer que quando dá ênfase à história de afrodescendentes e indígenas é ideológica e quando é sobre a história europeia não é.”


Didática por temas é defendida por

 pesquisadores

O novo currículo de História deve passar a abordar os tópicos agrupados em temas, e não mais de forma cronológica. O sistema é defendido por pesquisadores e também é praticado em outros países.

Segundo a professora Márcia Elisa Teté Ramos, da UEL, é possível trabalhar várias temáticas e abordar os tempos históricos, como a Antiguidade, a Idade Média, a Modernidade. “Posso pegar uma temática como a questão da mulher, percorrer o passado dizendo como era a situação da mulher antes, no Brasil, no mundo, falar sobre as lutas que fizeram com que as mulheres tivessem direito ao voto, como é hoje a situação da mulher indiana, etc. Isso faz com que o aluno perceba que nem sempre a situação da mulher foi assim como hoje se apresenta”, explica.

O aprendizado fica muito mais interessante, diz Joseli Mendonça, da UFPR, a partir de problematizações, que devem estar ancoradas no presente. “Cidadania se ensina apresentando a Grécia, por exemplo, discutindo a situação atual, mas buscando no passado elementos de comparação para identificar permanências e transformações”, afirma. Ela ressalta que a cronologia faz parte, mas o ensino de História não deve se resumir a isso, nem à uma sucessão de conhecimentos informativos sobre eventos.


Pelo mundo

A Gazeta do Povo comparou o conteúdo de História aplicado na Austrália, país do hemisfério sul que também passou por processo de colonização europeia e por massacre da população nativa:

Ano 1- Presente e passado da vida familiar: entender como a estrutura familiar mudou ao longo do tempo.

Ano 2- O passado no presente: explorar e apreciar a história local examinando reminiscências e considerando porque deveriam ser preservados.

Ano 3 - Comunidade e lembranças: estudar a identidade e diversidade dos primeiros povos australianos e demais povos por meio de símbolos, celebrações e comemorações.

Ano 4 - Primeiros contatos: começando com a história dos aborígenes, estudar a exploração e colonização do território, o impacto em outras sociedades, o impacto dos migrantes nas novas terras.

Ano 5 - Colônias australianas: fundação das primeiras colônias em 1800, eventos e pessoas significativas para o período, etc.

Ano 6 - Austrália como nação: estudantes exploram os fatos a partir de 1900 que levaram à formação de uma federação e as experiências de democracia e cidadania ao longo do tempo.

Ano 7 - O mundo antigo: abrangendo o período de 60 a.C até 650 d.C, abordando as descobertas (os fatos conhecidos) e os mistérios (o que não se sabe sobre esse período) acerca das sociedades egípcia ou grega ou romana; chinesa ou indiana; e australiana.

Ano 8 - Do antigo para o mundo moderno: o período de 650 d.C até 1750, quando as civilizações entraram em contato uma com outra e os desafios sociais, religiosos, econômicos e políticos, estudando em profundidade um evento do continente europeu, um do continente asiático e um terceiro.

Ano 9 - O mundo moderno - making of: abordagem da industrialização, do imperialismo e o nacionalismo no período que vai de 1750 a 1918. A colonização da Austrália como parte da expansão europeia. O período culminando com a Primeira Guerra Mundial.

Ano 10 - O mundo moderno e a Austrália: Abordar de 1918 (incluindo a Segunda Guerra Mundial) até a presente data, com ênfase na situação em que se encontra a Austrália dentro do contexto global.

Fonte: Gazeta do Povo 18/10/2015

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