domingo, 31 de janeiro de 2016

A ALFABETIZAÇÃO NA ERA DIGITAL

Entrevista de Emília Ferreiro à Revista Nova Escola. O tema da entrevista é:  

Alfabetização nos Dias Atuais.

Todos sabem que sou entusiasta do tema, e por este motivo, transcrevi aqui a entrevista. Além da transcrição, estou publicando o vídeo.
Mas antes de iniciar a entrevista, vamos saber quem é Emília Ferrero.

Emília Ferreiro nasceu na Argentina em 1936. Doutorou-se na Universidade de Genebra, sob orientação do biólogo Jean Piaget, cujo trabalho de epistemologia genética (uma teoria do conhecimento centrada no desenvolvimento natural da criança) ela continuou, estudando um campo que o mestre não havia explorado: a escrita. A partir de 1974, Emília desenvolveu na Universidade de Buenos Aires uma série de experimentos com crianças que deu origem às conclusões apresentadas em Psicogênese da Língua Escrita, assinado em parceria com a pedagoga espanhola Ana Teberosky e publicado em 1979. Emília é hoje professora titular do Centro de Investigação e Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional, da Cidade do México, onde mora. Além da atividade de professora - que exerce também viajando pelo mundo, incluindo frequentes visitas ao Brasil -, a psicolinguista está à frente do site CRIANÇAS ESCRITORAS, em que estudantes escrevem em parceria com autores consagrados e publicam os próprios textos.



 ENTREVISTA: 


Entrevistadora: Alguns falam de alfabetização digital, o que você pensa disso?

Emília: Uns passam boa parte da vida lutando contra os termos, e sobretudo, o uso que se faz de alguns termos. Eu não gosto de "alfabetização digital". E por que não gosto?
Porque simplesmente creio que a alfabetização própria para esse século XXI, que estamos vivendo, inclui os objetos, todos os objetos sobre os quais circulam imagens e textos. E não se pode excluir alguns. Uma época se usava o quadro negro e o aluno que estava alfabetizado para a lousa, estava bem. Depois, há que alfabetizar para outros tipos de objetos, como os livros de estudo. Hoje em dia, há que alfabetizar ,ou melhor, introduzir a uma cultura escrita em que os objetos de produção de escrita, têm variado enormemente, e nos quais as superfícies sobre as quais se realizam as escritas, também têm variado enormemente, incluindo todos os processos digitais que hoje conhecemos e os que vão vir. Hoje em dia, em um contrato se assinam cláusulas inconcebíveis. Há poucos anos, se escreveu em uma cláusula que esta obra pode ser reproduzida em qualquer tipo de superfície que conhecemos e que vamos conhecer, com programas de tal e qual tipo... Ninguém sabe o que vai vir, mas temos que estar preparados para as mudanças muito rápidas e para uma coisa que... se queremos que alguém saiba escrever com distintos tipos de grafia, tudo bem. Em qualquer processador de palavras se pode escolher a opção cursiva, como se pode escolher a opção letra gótica, como se pode escolher escrever os caracteres todos em maiúscula. Temos uma grande liberdade hoje em dia para escolher os caracteres, com os quais , vamos produzir mensagens e textos.

Entrevistadora: temos uma tipografia dentro do computador que as pessoas não percebem.


Emília: Isso não existia antes, era um recurso de imprensa, de outros profissionais, hoje é um recurso para qualquer pessoa. Sejamos honestos. Quantas crianças mandam mensagens de texto por um celular e não usam os dedos tradicionais das mãos, usam os polegares, e os usam com grande eficiência. O polegar não era um dedo particularmente interessante para aprender a escrever. O polegar não produzia letras. Agora os polegares produzem letras. E agora se escreve com as duas mãos, não somente com uma. Então, há algumas discussões que já envelheceram tanto, mas tanto, que não é possível que sigam ocupando o espaço mental das pessoas! Eu peço desculpas por não estar respondendo adequadamente as perguntas sobre letra cursiva para esse programa. Então não há palestras em que não apareçam perguntas sobre o que fazer com os canhotos. Já não há canhotos ou destros, há teclados. Se escreve com as duas mão e o teclado nos liberou dessa coisa tão complicada que eram os destros e os canhotos. Então, por favor, façamos as perguntas sobre a aprendizagem da língua escrita de acordo com o tempo histórico em que vivemos. E não sigamos fazendo as perguntas que tem mais de um século de atraso.





Fonte: Revista Nova Escola

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