sábado, 25 de abril de 2015

A ORIGEM HISTÓRICA DO TERMO SENHOR (A)

DISCUSSÕES SOBRE A ALTERNÂNCIA VOCÊ E O SENHOR, A SENHORA
 
Fábio Della Paschoa Rodrigues
 
Senhor e senhora medievais do ~ da ilustração do cartão postalOs primeiros textos portugueses, segundo Marilina dos Santos Luz [1] , “recebem o termo senhor como o significado de ‘pessoa que tem autoridade e direitos sobre alguém ou alguma coisa’”, ainda na Idade Média. Temos inúmeros exemplos desse uso ao longo das histórias portuguesa e brasileira, como senhor das terras (senhor feudal), senhor de escravos, senhor de engenho. Historicamente também, o termo se aplicou aos reis, que, depois de Deus, era aquele a quem melhor se adaptava o nome de senhor. Nesse sentido, ao aproximar o pronome de tratamento ao termo bíblico Senhor, estabelecia-se uma origem divina do rei. Ao referir-se a um rei, os súditos não se esqueciam que ele era Rey e Senhor. Durante um certo período este foi o tratamento mais apreciado pelos reis e considerado mais conveniente pelas pessoas que dele se aproximavam. O termo também era usado para os representantes das mais elevadas classes sociais, substituindo, por vezes, outros títulos de nobreza; era freqüente os condes serem tratados singelamente por senhor. Posteriormente, senhor adquire a possibilidade de ser usado como prenome, com uma nova função, designando ainda autoridade, mas também respeito.
 Já na Idade Média e, posteriormente, no século XV, o termo era usado de superior para inferior, para demonstrar a diferença social, verificada por exemplo, quando D. João incita seus soldados: “Avamte, senhores! Avamte, avamte” (F. Lopes, Crón. D. João, p. 107).
 
 
 
O termo vossa mercê (que deu origem ao atual você) era também título dado ao rei, mas, assim como vossa senhoria e vossa excelência, acabou vulgarizando-se. Essa vulgarização se deu porque era permitido o uso do termo para dirigir-se a outras pessoas de alto estado ou a um filho do rei, a alguns fidalgos ou condes. No século XVI o tratamento era considerado ainda  muito respeitoso, embora mais generalizado, sendo usado por servos ao referirem-se aos seus amos e aos amigos destes. Vossa mercê não era tratamento normal entre amigos fidalgos. O termo acabou sendo usado como um mero tratamento de cortesia.
Mudando radicalmente de época, nos anos 80 e, principalmente, nos anos 90 deste século, o pronome de tratamento senhor(a) adquire novos usos, restringe-se a outras situações, bem distintas das já vistas. Atualmente, seu uso é muito mais regido pela idade e pela distância social que pela autoridade, mas conserva ainda arraigado alguns valores que remontam à época dos reis e senhores como submissão e  respeito (aos “superiores”).
Notamos que, hoje em dia, o uso de você é extremamente disseminado. Deixou o campo familiar e íntimo para ser usado entre iguais, de superior para inferior e de inferior para superior, dependendo da ocasião. Tal uso pode ser uma forma de ser cortês ou amável, de tentar uma proximidade ou um galanteio. O termo senhor, muitas vezes, é considerado pejorativo, indicando, supostamente, ou que a pessoa com quem falamos é bem mais velha (o que não é educado, segundo a “etiqueta”) ou uma frieza, uma distância entre as pessoas. Senhor é empregado quando se quer deixar claro que não há intimidade, em situações formais da sociedade de consumo capitalista (relações “cliente-fornecedor”) ou quando se quer marcar a distância entre os falantes, não importando se de inferior para superior ou vice-versa. Isto quer dizer que a “autoridade”, o “respeito” e a “cortesia” que eram inerentes ao termo já não estão tão presentes, sendo associado mais comumente à distância de idade, grupo, hierarquia, classe social.
Ironicamente, um pronome originariamente usado para referir-se a reis, aproximando-os do Senhor –  portanto, muito nobre –, hoje é considerado ultrapassado, pejorativo, em certa medida até desrespeitoso. O valor bíblico associado ao termo ainda é muito presente e muitas pessoas, quando tratadas por senhor ou senhora, respondem de imediato: “O Senhor (A Senhora) está no Céu”.
Tendo por base os dados da folha de prova e uma pequena pesquisa informal com professores e  mães de alunos de um colégio particular de classe média da cidade de Salto/SP, interessantes fatos são constatados e algumas hipóteses podem ser formuladas.
 Os professores e as mães de alunos (generalizemos: os adultos) tratam seus pais, na grande maioria, de forma mais respeitosa, usando o senhor/a senhora ou chamando-os pelo nome. O mesmo acontece em relação ao sogro e à sogra e pessoas de mais idade. Todos os informantes tratam pessoas iguais (em idade, grupo social ou hierarquia) por você. Mas, em situações mais formais e dirigindo-se a desconhecidos, o tratamento mais usual é o senhor/a senhora (exceto quando a pessoa é muito mais nova). Os professores se tratam por você, mesmo tratamento dado à coordenadora. Porém, todos eles tratam a diretora do colégio por senhora, demonstrando respeito à sua autoridade, ao que parece.
Já seus filhos os tratam por você ou pelo nome, tratamentos também usados para os professores. As mães e os professores relataram que, “na época deles”, os professores e as professoras eram chamados pelos seus nomes precedidos de “seu” e “dona”, variações de senhor e senhora quando usados como prenome. Essas mudanças no tratamento dos filhos pode ser explicada pelo fato de que os próprios pais consideram o senhor/a senhora como pejorativo e educam seu filhos para que não usem esse pronome, preferindo o nome da pessoa ou  você.
Finalmente, um outro fato muito interessante notado na pesquisa é a disseminação do simples uso do nome da pessoa, que, ao que parece, substitui o senhor/a senhora e você com a vantagem de ser um termo neutro e ao mesmo tempo cortês. Evitaria a intimidade indesejada e o formalismo excessivo. A maioria dos pesquisados prefere esse tratamento, assim como seus filhos, conforme suas mães relataram.
 
Nos manuais de Língua Portuguesa atuais, os termos você e senhor são assim referidos:
 
1) Você – “origina-se de Vossa Mercê, passou ainda por estas formas: Vossemecê, Vosmecê e Vossancê, cujas variantes populares são Mecê, Vancê e Vassuncê. Uso: pessoas que gozam de nossa intimidade.
Senhor – Uso: pessoas que nos merecem respeito ou de quem exigimos respeito. [2]
2) Você:   forma de intimidade; usado como tratamento en tre iguais ou de superior para inferior (em idade, classe social, hierarquia);atualmente, há alargamento do seu uso: é possível ser usado de inferior para superior.
 
Senhor(a):
­           forma de respeito ou cortesia;
­           usado de inferior para superior;
­           opõe-se a você;
­           forma  de marcar as distâncias, de evitar intimidades, quando o tratamento é dado de um superior para um inferior (como no exemplo 7 da folha de prova). [3]
 
 
 
3) Você. Contração de Vossa Mercê; geralmente empregada ou como tratamento íntimo entre iguais ou como tratamento de superior para inferior; vossemecê.
Senhor. Possuidor de feudo, Estado, lugar; senhorio; dono; indivíduo distinto; título nobiliárquico; tratamento de cerimônia; amo; Deus; dono de engenho de açúcar (...) [4]
Percebemos que a definição dicionarizada de senhor faz referências a alguns aspectos históricos que já apontamos, bem como à sua acepção bíblica. Nas gramáticas, os pronomes de tratamento são apenas prognosticados: usa-se aqui, aqui não se usa. O tratamento dado por esses manuais é muito superficial, com definições genéricas e sem fazer referência ao riquíssimo contexto histórico e social do uso de tais pronomes ou, então trata-se superficialmente das variantes dos termos, talvez porque esse seja um tópico considerado acessório na gramática.
 [1]  LUZ, Marilina dos Santos. Fórmulas de Tratamento no Português Arcaico – Subsídios para o seu estudo. Coimbra: Casa do Castelo Editora, 1958.
 [2]  SACCONI, Luiz Antonio. Nossa Gramática – Teoria e Prática. São Paulo: Atual, 1994.
 [3]  CUNHA, Celso. Gramática do Português Contemporâneo. Belo Horizonte: Editora Bernardo Alvares S.A., 1971.
 [4]  BUENO, Francisco da Silveira. Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1984.

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